As Bandeiras das Tragédias
- Cristiano Goncalves
- 2 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
Basta ligarmos a televisão ou acessarmos brevemente a internet para nos depararmos com alguma trágica notícia, e muitas coisas ruins que acontecem em torno do mundo a todo o momento. Progressivamente somos bombardeados por elas através da agilidade ascendente dos veículos de comunicação. Em meio a tantas notícias, existem algumas que chocam a sociedade e causam movimentos maiores do que outras.
Seja mais distante como o “11 de setembro”, ou mais perto como a tragédia de Santa Maria, ou ainda do outro lado do mundo como a menina indiana de cinco anos que recentemente faleceu após ser estuprada, algumas tragédias tem gerado respostas no ser humano de modo geral, e feito com que se levantem vários grupos com suas respectivas bandeiras. Entre as muitas bandeiras hasteadas no contexto de um mundo que possui a ânsia de comentar sobre tudo o que acontece, temos duas que me chamam atenção: os que de forma ignorante dizem que Deus não existe, e os que de forma soberba apontam os merecedores do juízo divino gritando “bem feito!”.
Mas qual dessas bandeiras estaria com a razão? Bem, vamos pensar.
Às vezes a dor que o homem sente lhe causa revolta, em meio a essa revolta há também desespero. Diante de toda essa desestruturação psíquica muitos vêm a fazer a equivocada afirmação: “Deus não existe!”
Isso, porém, é um grande engano, que ao invés de trazer solução ao homem, o faz se perder ainda mais nas profundezas de seu sofrimento. A verdade é que o sofrimento de modo algum prova a inexistência de Deus, pelo contrário, aponta para a sua existência, e consequentemente para onde poderemos encontrar alívio nos livrando do pesado fardo da dor e experimentando o consolo que excede o entendimento humano.
Para compreendermos essa última afirmação feita, devemos entender um princípio extremamente básico, que joga luz para tatearmos um pouco melhor na penumbra da compreensão humana. Trata-se do princípio de que:
o homem vive em um estado de rebelião contra Deus e o seu propósito.
Como bem escreve em seu livro “Em Guarda”, o filósofo William Lane Craig afirma que,
os terríveis males que assolam o mundo são um testemunho da depravação do homem em seu estado de alienação de Deus.
O homem pecou contra Deus escolhendo dor ao invés de alegria, trevas ao invés de luz, morte ao invés de vida. A partir dessa primeira rebelião do homem, ele tem se corrompido e se entregado a práticas morais reprováveis e a depravação total, que ele mesmo escolheu quando preferiu a desobediência à obediência. A história do homem, desde então, segue o curso em que ele mesmo se colocou quando optou pelo que era mal.
Ainda que compreendamos tudo isso, algum caso em particular pode perturbar a nossa mente. Mesmo entendendo que o homem é o causador de seu próprio mal, nós dificilmente conseguimos enxergar a vida prática como “a humanidade”, normalmente nós enxergamos de forma a ver apenas os indivíduos dentro da humanidade. Esse modo de enxergar a vida pode nos levar a questionar: Mas Deus poderia ter evitado o sofrimento daquela menina indiana citada no início do texto, então porque Ele não o evitou?
Para respondermos à questão anterior devemos esclarecer alguns pontos: primeiro, devemos considerar que em um mundo livre do pecado nada disso precisaria ser evitado, pois simplesmente não existiriam fatos como esses; segundo, devemos conceber que a nossa visão sempre está presa à temporalidade, enquanto Deus é um ser atemporal, e não estamos na mesma posição que Ele para ler todas as implicações da ocorrência ou não dessa tragédia; terceiro, os planos de Deus se voltam para a eternidade, enquanto nós somos tencionados a achar que a vida inteira se resume à terra, ou como melhor coloca W. L. Craig em seu livro “o principal propósito da vida não é a felicidade, mas sim o conhecimento de Deus”, ou ainda, como ele mesmo descreve,
muito do sofrimento deste mundo pode parecer totalmente sem sentido em relação ao objetivo de produzir felicidade humana, mas pode não ser sem sentido em relação a trazer um conhecimento mais profundo de Deus.
Mas então porque Deus não evitou o sofrimento daquela menina? Não podemos chegar à resposta exata dessa pergunta, mas não podemos mensurar também os frutos dessa morte para a família dessa menina, para a Índia, para o mundo, ou para alguém que estivesse do outro lado do mundo, não podemos conhecer os desdobramentos que as aparentes possibilidades poderiam concretizar se tivessem se estabelecido. Ou ainda, não podemos mensurar os frutos dessa morte para a própria menina que talvez, se soubesse os desdobramentos de tudo isso, teria ela mesmo encontrado a razão do sofrer, por mais difícil que seja para nós aceitar isso.
Talvez, não haja desdobramento nenhum a ser alcançado nesse mundo, mas ao entrar na eternidade e ser recebida por Jesus, ao ter suas lágrimas enxugadas, e não mais conhecer o que é a dor ou a tristeza, ao se encontrar na presença do Deus verdadeiro, essa garotinha se encontrasse em resolução tal a afirmar que sofrimento nenhum é preço alto demais a ser pago para se encontrar na presença de seu Pai.
Mas como disse antes, existe um outro grupo, e para falar desse grupo faço uso do que escreve Lucas,
“Naquela mesma ocasião, chegando alguns, falavam a Jesus a respeito dos galileus cujo sangue Pilatos misturara com os sacrifícios que os mesmos realizavam. Ele, porém, lhes disse: Pensais que esses galileus eram mais pecadores que todos os outros galileus, por terem padecido estas coisas? Não eram, eu vo-lo afirmo; se, porém não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis. Ou cuidais que aqueles dezoito sobre os quais desabou a torre de Siloé e os matou eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis.” Lucas 13:1-5
Esse outro grupo é o que se ergue como se estivesse acima do bem e do mal, como se fosse o próprio juiz quando na verdade apenas traz juízo sobre si, e se alimenta de catástrofes e tragédias, apontando pecados e pecadores e gritando “bem feito!” sem amor ou compaixão, sem ajuda, e sem chorarem com os que choram.
Devemos anunciar o evangelho, que denuncia os pecados do homem, mas que também nos revela que somente a Jesus foi dado o poder de julgar. Desse modo, não podemos nos calar diante do pecado, mas não podemos nos esquecer que também somos pecadores e em meio a tragédias cabe a nós nos compadecermos dos que sofrem, clamarmos aos céus por consolo, estendermo-nos em ajuda aos que necessitam, anunciando o evangelho com o temor de reconhecermo-nos como tão necessitados quanto qualquer um da Graça redentora, para que o Espírito - Ele sim - convença do pecado, da justiça e do juízo, libertando com salvação e consolo a alma dos que estão cativos.
Essa deve ser a bandeira que levantamos frente às adversidades da vida, não a de incrédulos, nem a de acusadores, mas a da verdade do Evangelho, do amor de Cristo, do consolo e da vida.
Publicado originalmente em 2012
Referência Bibliográfica:
- CRAIG, William Lane. Em Guarda: Defenda a fé cristã com razão e precisão.

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